Capítulo 7 Inferência Estatística para Duas Populações
Até aqui foram apresentados testes de hipóteses e intervalos de confiança para o parâmetro de uma única população (a média \(\mu\), a variância \(\sigma^2\) ou uma proporção \(p\)). A partir de agora iremos estender aqueles resultados para o caso de duas populações independentes.
7.1 Comparação das médias de distribuições Normais
Suponha que queremos comparar duas médias de duas populações independentes e ambas com distribuição Normal. Da população 1 retiramos uma amostra aleatória \(X_{11},\ldots,X_{1,n_1}\) de tamanho \(n_1\) e da população 2 retiramos uma amostra aleatória \(X_{21},\ldots,X_{2,n_2}\) de tamanho \(n_2\).
Vamos supor que \(X_1\sim N\left(\mu_1,\sigma^2_1\right)\) e \(X_2\sim N\left(\mu_2,\sigma^2_2\right)\). Assim temos que
\[\bar X_1 \sim N\left(\mu_1,\frac{\sigma^2_1}{n_1}\right)~~~~\text{e}~~~~\bar X_2 \sim N\left(\mu_2,\frac{\sigma^2_2}{n_2}\right).\]
Além disso,
\[\bar X_1 - \bar X_2 \sim N\left(\mu_1-\mu_2,\frac{\sigma^2_1}{n_1}+\frac{\sigma^2_2}{n_2}\right)\]
Consideramos três casos distintos para o teste de hipóteses para comparação de duas médias. O primeiro caso em que temos as variâncias das populações conhecidas, o segundo as variâncias são desconhecidas, porém iguais e o terceiro caso em que temos as variâncias desconhecidas e distintas.
7.1.1 Variâncias Conhecidas
Consideraremos nesta seção as inferências estatísticas para a diferença de médias \(\mu_1-\mu_2\) de duas distribuições normais, em que as variâncias são conhecidas. Assim, um estimador lógico de \(\mu_1-\mu_2\) é a diferença das médias amostrais \(\bar X_1-\bar X_2\). Baseando-se nas propriedades de valores esperados,
\[E(\bar X_1-\bar X_2)=\mu_1-\mu_2\] \[V(\bar X_1-\bar X_2)=V(\bar X_1)+V(\bar X_2)=\frac{\sigma^2_1}{n_1}+\frac{\sigma^2_2}{n_2}\]
Portanto, podemos estabelecer que:
\[Z=\frac{\bar X_1-\bar X_2-(\mu_1-\mu_2)}{\sqrt{\frac{\sigma^2_1}{n_1}+\frac{\sigma^2_2}{n_2}}}\sim N(0,1)\]
7.1.1.1 Teste de Hipóteses
Estamos interessados em testar a hipótese nula: \(H_0: \mu_1-\mu_2=\Delta_0\), contra as seguintes hipóteses alternativas:
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 \ne \Delta_0\)
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 > \Delta_0\)
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 < \Delta_0\)
A estatística de teste será
\[z_0=\frac{\bar X_1-\bar X_2-\Delta_0}{\sqrt{\frac{\sigma^2_1}{n_1}+\frac{\sigma^2_2}{n_2}}}\]
Portanto, podemos estabelecer para um teste com nível de significância \(\alpha\):
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | Região Crítica | p-valor |
|---|---|---|
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 \ne \Delta_0\) | \(z_0<-z_{\frac{\alpha}{2}}\) ou \(z_0>z_{\frac{\alpha}{2}}\) | \(2\times P(Z>|z_0|)\) |
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 > \Delta_0\) | \(z_0>z_{\alpha}\) | \(P(Z>z_0)\) |
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 < \Delta_0\) | \(z_0<-z_{\alpha}\) | \(P(Z<z_0)\) |
7.1.1.1.1 Exemplo
Uma pessoa que desenvolve produtos está interessada em reduzir o tempo de secagem do zarcão. Duas formulações de tinta são testadas; a formulação 1 tem uma química padrão e a formulação 2 tem um novo ingrediente para secagem, que deve reduzir o tempo de secagem. Da experiência, sabe-se que o desvio padrão do tempo de secagem é igual a oito minutos, e essa variabilidade inerente não deve ser afetada pela adição do novo ingrediente. Dez espécimes são pintados com a formulação 1 e outros dez espécimes são pintados com a formulação 2. Os vinte espécimes são pintados em uma ordem aleatória. Os tempos médios de secagem das duas amostras são \(\bar x_1=121\) minutos e \(\bar x_2=112\) minutos, respectivamente. Quais são as conclusões que o idealizador de produtos pode tirar sobre a eficiência do novo ingrediente, usando \(\alpha=0.05\)?
Solução:
- \(H_0: \mu_1-\mu_2=0\rightarrow H_0: \mu_1=\mu_2\) vs \(H_1: \mu_1>\mu_2\)
- \(z_0=\frac{121-112}{\sqrt{\frac{8^2}{10}+\frac{8^2}{10}}}=2.52\)
- \(z_{0.05}=1.645\)
- Como \(z_0(2.52)>z_{0.05}(1.64)\), devemos rejeitar \(H_0\), portanto há evidência a um nível de significância de 5% de que a formulação 2 reduz significativamente o tempo de secagem.
- \(p-valor=P(Z>2.52)=0.0059\)
7.1.1.2 Intervalo de Confiança
Se \(\bar x_1\) e \(\bar x_2\) forem as médias de duas amostras aleatórias independentes de tamanhos \(n_1\) e \(n_2\), provenientes de populações com variâncias conhecidas \(\sigma_1^2\) e \(\sigma_2^2\), respectivamente, então um intervalo de confiança de \(100(1-\alpha)\%\) para \(\mu_1-\mu_2\) é:
\[(\bar x_1-\bar x_2) -z_{\frac{\alpha}{2}}\sqrt{\frac{\sigma^2_1}{n_1}+\frac{\sigma^2_2}{n_2}}\leq \mu_1-\mu_2 \leq (\bar x_1-\bar x_2) +z_{\frac{\alpha}{2}}\sqrt{\frac{\sigma^2_1}{n_1}+\frac{\sigma^2_2}{n_2}}\]
7.1.1.2.1 Exemplo
Testes de resistência à tensão foram feitos em dois tipos diferentes de estruturas de alumínio. Essas estruturas foram usadas na fabricação das asas de um avião comercial. De experiências passadas com o processo de fabricação dessas estruturas e com o procedimento de testes, os desvios-padrão das resistências à tensão são considerados conhecidos. Os dados obtidos são os seguintes: \(n_1=10, \bar x_1=87.6, \sigma_1=1, n_2=12, \bar x_2=74.5, \sigma_2=1.5\). Se \(\mu_1\) e \(\mu_2\) denotarem as resistências médias verdadeiras à tensão para os dois tipos da estrutura, construa um intervalo de confiança de 90% para a diferença na resistência média \(\mu_1-\mu_2\).
Solução:
- \(z_{0.05}=1.645\)
- \((87.6-74.5) -1.645\sqrt{\frac{1^2}{10}+\frac{1.5^2}{12}}\leq \mu_1-\mu_2 \leq (87.6-74.5)+1.645\sqrt{\frac{1^2}{10}+\frac{1.5^2}{12}}\)
- \(12.22 \leq \mu_1-\mu_2 \leq 13.98\)
Note que o intervalo de confiança não inclui o zero, implicando que a resistência média da estrutura 1 (\(\mu_1\)) excede a resistência média da estrutura 2 (\(\mu_2\)). De fato, podemos estabelecer que estamos 90% confiantes de que a resistência média à tensão da estrutura 1 excede a resistência média da estrutura 2 por um valor entre 12.22 e 13.98 quilogramas por milímetro quadrado
7.1.2 Variâncias Desconhecidas
Consideraremos nesta seção as inferências estatísticas para a diferença de médias \(\mu_1-\mu_2\) de duas distribuições normais, em que as variâncias são desconhecidas.
Nesta situação, dois casos diferentes tem de ser tratados:
- Caso 1: as variâncias das duas distribuições são desconhecidas, porém iguais;
- Caso 2: as variâncias das duas distribuições são desconhecidas e não necessariamente iguais.
Em ambos os casos, o estimador de \(\mu_1-\mu_2\) é a diferença das médias amostrais \(\bar X_1-\bar X_2\).
7.1.2.1 Caso 1: \(\sigma^2_1=\sigma^2_2=\sigma^2\)
Considerando
\[S^2_p=\frac{(n_1-1)S^2_1+(n_2-1)S^2_2}{n_1+n_2-2}\]
Podemos estabelecer
\[T=\frac{\bar X_1-\bar X_2-(\mu_1-\mu_2)}{S_p\sqrt{\frac{1}{n_1}+\frac{1}{n_2}}}\sim T(n_1+n_2-2)\]
Teste de hipóteses
Estamos interessados em testar a hipótese nula:
\[H_0: \mu_1-\mu_2=\Delta_0,\]
contra as seguintes hipóteses alternativas:
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 \ne \Delta_0\)
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 > \Delta_0\)
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 < \Delta_0\)
A estatística de teste é
\[t_0=\frac{\bar X_1-\bar X_2-\Delta_0}{S_p\sqrt{\frac{1}{n_1}+\frac{1}{n_2}}}\]
Portanto, podemos estabelecer para um teste com nível de significância \(\alpha\):
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | Região Crítica | p-valor |
|---|---|---|
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 \ne \Delta_0\) | \(t_0<-t_{\frac{\alpha}{2};n_1+n_2-2}\) ou \(t_0>t_{\frac{\alpha}{2};n_1+n_2-2}\) | \(2\times P(T>|t_0|)\) |
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 > \Delta_0\) | \(t_0>t_{\alpha;n_1+n_2-2}\) | \(P(T>t_0)\) |
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 < \Delta_0\) | \(t_0<-t_{\alpha;n_1+n_2-2}\) | \(P(T<t_0)\) |
7.1.2.1.1 Exemplo
Dois catalisadores estão sendo analisados para determinar como eles afetam o rendimento médio de um processo químico. Especificamente, o catalisador 1 está corretamente em uso, mas o catalisador 2 é aceitável. Uma vez que o catalisador 2 é mais barato, ele deve ser adotado, desde que não mude o rendimento do processo. Um teste é feito em uma planta piloto, resultando em \(\bar x_1=92.255, \bar x_2=92.733, n_1=n_2=8, s_1=2.39, s_2=2.98\). Há alguma diferença entre os rendimentos médios? Use \(\alpha=0.05\) e considere variâncias iguais.
Solução
- \(H_0: \mu_1=\mu_2\) vs \(H_1: \mu_1\ne\mu_2\)
- \(s^2_p=\frac{(8-1)2.39^2+(8-1)2.98^2}{8+8-2}=7.30\)
- \(s_p=\sqrt{7.30}=2.70\)
- \(t_0=\frac{92.255-92.733}{2.70\sqrt{\frac{1}{8}+\frac{1}{8}}}=-0.35\)
- \(t_{0.025;14}=-2.14\)
- \(p-valor=2\times P(T>|-0.35|)=0.7315483\)
Como \(t_0(-0.35)<t_{0.025;14}(-2.14)\), não devemos rejeitar \(H_0\), portanto não há evidência a um nível de significância de 5% para concluir que o catasalidor 2 resulta em um rendimento médio diferente do catalisador 1.
Intervalo de Confiança
Se \(\bar x_1\), \(\bar x_2\), \(s_1^2\) e \(s_2^2\) forem as médias e as variâncias amostrais de duas amostras aleatórias independentes de tamanhos \(n_1\) e \(n_2\), respectivamente, provenientes de duas populações normais independentes, com variâncias desconhecidas e iguais, então um intervalo de confiança de \(100(1-\alpha)\%\) para \(\mu_1-\mu_2\) é:
\[\left[(\bar x_1-\bar x_2) -t_{\frac{\alpha}{2};n_1+n_2-2}S_p\sqrt{\frac{1}{n_1}+\frac{1}{n_2}}\leq \mu_1-\mu_2 \leq (\bar x_1-\bar x_2) +t_{\frac{\alpha}{2};n_1+n_2-2}S_p\sqrt{\frac{1}{n_1}+\frac{1}{n_2}}\right]\]
7.1.2.1.2 Exemplo
Testes de resistência à tensão foram feitos em dois tipos diferentes de estruturas de alumínio. Essas estruturas foram usadas na fabricação das asas de um avião comercial. Os dados obtidos são os seguintes: \(n_1=10, \bar x_1=87.6, s_1=1, n_2=12, \bar x_2=74.5, s_2=1.5\). Se \(\mu_1\) e \(\mu_2\) denotarem as resistências médias verdadeiras à tensão para os dois tipos da estrutura, construa um intervalo de confiança de 90% para a diferença na resistência média \(\mu_1-\mu_2\).
Solução
- \(t_{0.05;20}=1.72\)
- \(s^2_p=\frac{(10-1)1^2+(12-1)1.5^2}{10+12-2}=1.6875\)
- \((87.6-74.5) -1.72\times 1.30\sqrt{\frac{1}{10}+\frac{1}{12}}\leq \mu_1-\mu_2 \leq (87.6-74.5) +1.72\times 1.30\sqrt{\frac{1}{10}+\frac{1}{12}}\)
- \(12.14 \leq \mu_1-\mu_2 \leq 14.06\)
Note que o intervalo de confiança não inclui o zero, implicando que a resistência média da estrutura 1 (\(\mu_1\)) excede a resistência média da estrutura 2 (\(\mu_2\)). De fato, podemos estabelecer que estamos 90% confiantes de que a resistência média à tensão da estrutura 1 excede a resistência média da estrutura 2 por um valor entre 12.14 e 14.06 quilogramas por milímetro quadrado
Note que para o mesmo caso com as variâncias conhecidas, no capítulo anterior, o intervalo obtido é mais estreito, mostrando uma maior precisão.
7.1.2.2 Caso 2: \(\sigma^2_1\ne\sigma^2_2\)
Podemos estabelecer
\[T=\frac{\bar X_1-\bar X_2-(\mu_1-\mu_2)}{\sqrt{\frac{S^2_1}{n_1}+\frac{S^2_2}{n_2}}}\sim T(v)\]
Onde,
\[v=\frac{\Big(\frac{s_1^2}{n_1}+\frac{s_2^2}{n_2}\Big)^2}{\frac{(s_1^2/n_1)^2}{n_1-1}+\frac{(s_2^2/n_2)^2}{n_2-1}}\]
Se \(v\) não for um número inteiro, arredonde para o menor inteiro mais próximo.
Teste de hipóteses
Estamos interessados em testar a hipótese nula:
\[H_0: \mu_1-\mu_2=\Delta_0,\]
contra as seguintes hipóteses alternativas:
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 \ne \Delta_0\)
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 > \Delta_0\)
- \(H_1: \mu_1-\mu_2 < \Delta_0\)
A estatística de teste é
\[t_0=\frac{\bar X_1-\bar X_2-\Delta_0}{\sqrt{\frac{S^2_1}{n_1}+\frac{S^2_2}{n_2}}}\]
Portanto, podemos estabelecer para um teste com nível de significância \(\alpha\):
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | Região Crítica | p-valor |
|---|---|---|
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 \ne \Delta_0\) | \(t_0<-t_{\frac{\alpha}{2};v}\) ou \(t_0>t_{\frac{\alpha}{2};v}\) | \(2\times P(T>|t_0|)\) |
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 > \Delta_0\) | \(t_0>t_{\alpha;v}\) | \(P(T>t_0)\) |
| \(H_1: \mu_1-\mu_2 < \Delta_0\) | \(t_0<-t_{\alpha;v}\) | \(P(T<t_0)\) |
7.1.2.2.1 Exemplo
Dois catalisadores estão sendo analisados para determinar como eles afetam o rendimento médio de um processo químico. Especificamente, o catalisador 1 está corretamente em uso, mas o catalisador 2 é aceitável. Uma vez que o catalisador 2 é mais barato, ele deve ser adotado, desde que não mude o rendimento do processo. Um teste é feito em uma planta piloto, resultando em \(\bar x_1=92.255, \bar x_2=92.733, n_1=n_2=8, s_1=2.39, s_2=2.98\). Há alguma diferença entre os rendimentos médios? Use \(\alpha=0.05\) e considere variâncias diferentes.
Solução
- \(H_0: \mu_1=\mu_2\) vs \(H_1: \mu_1\ne\mu_2\)
- \(v=\frac{\Big(\frac{2.39^2}{8}+\frac{2.98^2}{8}\Big)^2}{\frac{(2.39^2/8)^2}{8-1}+\frac{(2.98^2/8)^2}{8-1}}=13.34\approx13\)
- \(t_0=\frac{92.255-92.733}{\sqrt{\frac{2.39^2}{8}+\frac{2.98^2}{8}}}=-0.35\)
- \(t_{0.025;13}=-2.16\)
- \(p-valor=2\times P(T>|-0.35|)=0.7319441\)
Como \(t_0(-0.35)<t_{0.025;13}(-2.16)\), não devemos rejeitar \(H_0\), portanto não há evidência a um nível de significância de 5% para concluir que o catasalidor 2 resulta em um rendimento médio diferente do catalisador 1.
Intervalo de Confiança
Se \(\bar x_1\), \(\bar x_2\), \(s_1^2\) e \(s_2^2\) forem as médias e as variâncias amostrais de duas amostras aleatórias independentes de tamanhos \(n_1\) e \(n_2\), respectivamente, provenientes de duas populações normais independentes, com variâncias desconhecidas e desiguais, então um intervalo de confiança de \(100(1-\alpha)\%\) para \(\mu_1-\mu_2\) é:
\[\left[(\bar x_1-\bar x_2) -t_{\frac{\alpha}{2};v}\sqrt{\frac{S_1^2}{n_1}+\frac{S_2^2}{n_2}}\leq \mu_1-\mu_2 \leq (\bar x_1-\bar x_2) +t_{\frac{\alpha}{2};v}\sqrt{\frac{S_1^2}{n_1}+\frac{S_2^2}{n_2}}\right]\]
7.1.2.2.2 Exemplo
Testes de resistência à tensão foram feitos em dois tipos diferentes de estruturas de alumínio. Essas estruturas foram usadas na fabricação das asas de um avião comercial. Os dados obtidos são os seguintes: \(n_1=10, \bar x_1=87.6, s_1=1, n_2=12, \bar x_2=74.5, s_2=1.5\). Se \(\mu_1\) e \(\mu_2\) denotarem as resistências médias verdadeiras à tensão para os dois tipos da estrutura, construa um intervalo de confiança de 90% para a diferença na resistência média \(\mu_1-\mu_2\).
Solução
- \(v=\frac{\Big(\frac{1^2}{10}+\frac{1.5^2}{12}\Big)^2}{\frac{(1^2/10)^2}{10-1}+\frac{(1.5^2/12)^2}{12-1}}=19.19055\approx19\)
- \(t_{0.05;19}=1.73\)
- \((87.6-74.5) -1.73\times \sqrt{\frac{1^2}{10}+\frac{1.5^2}{12}}\leq \mu_1-\mu_2 \leq (87.6-74.5) +1.73\times \sqrt{\frac{1^2}{10}+\frac{1.5^2}{12}}\)
- \(12.17 \leq \mu_1-\mu_2 \leq 14.03\)
Note que o intervalo de confiança não inclui o zero, implicando que a resistência média da estrutura 1 (\(\mu_1\)) excede a resistência média da estrutura 2 (\(\mu_2\)). De fato, podemos estabelecer que estamos 90% confiantes de que a resistência média à tensão da estrutura 1 excede a resistência média da estrutura 2 por um valor entre 12.17 e 14.03 quilogramas por milímetro quadrado.
7.2 Comparação das variâncias de distribuições Normais
Suponha que queremos comparar as variâncias \(\sigma^2_1\) e \(\sigma^2_2\) de duas populações Normais independentes. Para isso, retiramos uma amostra aleatória \(X_{11},X_{12},\ldots,X_{1n_1}\) da população 1, com distribuição \(N(\mu_1,\sigma^2_1)\), e uma amostra \(X_{21},X_{22},\ldots,X_{2n_2}\) da população 2, com distribuição \(N(\mu_2,\sigma^2_2)\).
Como vimos anteriormente,
\[Q_1=\frac{n_1-1}{\sigma^2_1}s^2_1\sim\chi^2_{n_1-1}\]
\[Q_2=\frac{n_2-1}{\sigma^2_2}s^2_2\sim\chi^2_{n_2-1}\]
onde \(s^2_1\) é a variância amostral da população 1 e \(s^2_2\) a variância amostral da população 2. Neste caso, a expressão \(F\)
\[F=\frac{\frac{Q_1}{n_1-1}}{\frac{Q_2}{n_2-1}}=\frac{\frac{s^2_1}{\sigma^2_1}}{\frac{s^2_2}{\sigma^2_2}}=\frac{s^2_1}{s^2_2}\frac{\sigma^2_2}{\sigma^2_1}\sim F(n_1-1;n_2-1)\]
7.2.1 Teste de hipóteses
Desejamos testar as hipóteses relativas à igualdade das duas variâncias; isto é, \(H_0:\sigma^2_1=\sigma^2_2\), contra as seguintes hipóteses alternativas:
- \(H_1: \sigma^2_1\ne\sigma^2_2\)
- \(H_1: \sigma^2_1>\sigma^2_2\)
- \(H_1: \sigma^2_1<\sigma^2_2\)
A estatística de teste é
\[f_0=\frac{s^2_1}{s^2_2}.\]
Portanto, podemos estabelecer para um teste com nível de significância \(\alpha\):
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | Região Crítica |
|---|---|
| \(H_1: \sigma^2_1\ne\sigma^2_2\) | \(f_0<f_{1-\frac{\alpha}{2};n_1-1;n_2-1}\) ou \(f_0>f_{\frac{\alpha}{2};n_1-1;n_2-1}\) |
| \(H_1: \sigma^2_1>\sigma^2_2\) | \(f_0>f_{\alpha;n_1-1;n_2-1}\) |
| \(H_1: \sigma^2_1<\sigma^2_2\) | \(f_0<f_{1-\alpha;n_1-1;n_2-1}\) |
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | p-valor |
|---|---|
| \(H_1: \sigma^2_1\ne\sigma^2_2\) | \(2\times \min\{{P(F<f_0),P(F>f_0)}\}\) |
| \(H_1: \sigma^2_1>\sigma^2_2\) | \(P(F>f_0)\) |
| \(H_1: \sigma^2_1<\sigma^2_2\) | \(P(F<f_0)\) |
7.2.1.1 Exemplo
Duas misturas diferentes de gases estão sendo estudadas para determinar se uma delas é superior na redução da variabilidade de espessura das camadas de óxido. Dezesseis pastilhas são atacadas com cada gás. Os desvios-padrão da espessura de óxido são: \(s_1=1.96\) angstroms e \(s_2=2.13\) angstroms, respectivamente. Há qualquer evidência que indique ter um gás preferível em relação ao outro? Use um nível de significância de 2%.
Solução
- \(H_0: \sigma^2_1=\sigma^2_2\) vs \(H_1: \sigma^2_1\ne\sigma^2_2\)
- \(n=16\)
- \(\alpha=0.02 \rightarrow F_{0.99;15;15} = 0.28 \rightarrow F_{0.01;15;15} = 3.52\)
- \(f_0=\frac{1.96^2}{2.13^2}=0.85\)
- \(p-valor=2\times \min\{{P(F<0.85),P(F>0.85)}\}=2\times \min\{{0.3785271,0.6214729}\}=0.7570542\)
Como \(F_{0.99;15;15}(0.28)<f_0(0.85)<F_{0.01;15;15}(3.52)\), não devemos rejeitar \(H_0\), portanto não há evidência a um nível de significância de 2% para indicar um gás que resulte em uma variância menor da espessura de óxido.
7.2.2 Intervalo de Confiança
Se \(s_1^2\) e \(s_2^2\) forem variâncias de amostras aleatórias de tamanhos \(n_1\) e \(n_2\), respectivamente, provenientes de duas populações normais independentes, com variâncias desconhecidas \(\sigma_1^2\) e \(\sigma_2^2\), então um intervalo de confiança de \(100(1-\alpha)\%\) para a razão \(\frac{\sigma^2_1}{\sigma^2_2}\) é
\[\frac{s_1^2}{s_2^2\times f_{\frac{\alpha}{2};n_1-1;n_2-1}}\leq \frac{\sigma^2_1}{\sigma^2_2} \leq \frac{s_1^2}{s_2^2\times f_{1-\frac{\alpha}{2};n_1-1;n_2-1}}\]
7.2.2.1 Exemplo
Dois processos diferentes para esmerilhar podem ser usados, podendo produzir peças com iguais rugosidades médias na superfícies. Uma amostra aleatória de \(n_1=11\) peças, proveniente do primeiro processo, resulta em um desvio-padrão de \(s_1=5.1\) micropolegadas. Uma amostra aleatória de \(n_2=16\) peças, proveniente do segundo processo, resulta em um desvio-padrão de \(s_2=4.7\) micropolegadas. Encontre um intervalo de confiança de 90% para a razão \(\frac{\sigma^2_1}{\sigma^2_2}\)
Solução
- \(\frac{s_1^2}{s_2^2}=\frac{5.1^2}{4.7^2}=1.177\)
- \(f_{1-\frac{\alpha}{2};n_1-1;n_2-1}=f_{0.95;10;15}=0.351\)
- \(f_{\frac{\alpha}{2};n_1-1;n_2-1}=f_{0.05;10;15}=2.544\)
- \(\frac{1.177}{2.544} \leq \frac{\sigma^2_1}{\sigma^2_2} \leq \frac{1.177}{0.351}\)
- \(0.4626572 \leq \frac{\sigma^2_1}{\sigma^2_2} \leq 3.353276\)
Note que o intervalo de confiança inclui o valor 1, portanto, não podemos afirmar que as razões da rugosidade da superfície para os dois processos sejam diferentes com um nível de confiança de 90%.
7.3 Comparação das proporções populacionais
Consideremos \(X_1\) e \(X_2\) variáveis aleatórias que representam determinada característica de duas populações com distribuição de Bernoulli com parâmetros \(p_1\) e \(p_2\) respectivamente.
Retiremos duas amostras aleatórias independentes, \(X_{11},\ldots,X_{1,n1}\) e \(X_{21},\ldots,Y_{2,n2}\), dessas populações. Cada \(X_{1i}\), \(i=1,\ldots,n_1\) e cada \(X_{2j}, j=1,\ldots,n_2\), tem distribuição de Bernoulli com parâmetros \(p_1\) e \(p_2\) respectivamente, com médias \(p_1\) e \(p_2\) e variâncias \(\sigma^2_1=p_1(1-p_1)\) e \(\sigma^2_2=p_2(1-p_2)\), respectivamente.
As variáveis \(\hat p_1=\bar X_1\) e \(\hat p_2=\bar X_2\) são os estimadores de \(p_1\) e \(p_2\), respectivamente, e tem distribuição amostral aproximadamente normal:
\[\hat p_1\sim N\left(p_1,\frac{p_1(1-p_1)}{n_1}\right)~~~~\text{e}~~~~\hat p_2\sim N\left(p_2,\frac{p_2(1-p_2)}{n_2}\right).\]
Assim, temos que
\[\hat p_1-\hat p_2\sim N\left(p_1-p_2,\frac{p_1(1-p_1)}{n_1}+\frac{p_2(1-p_2)}{n_2}\right)\]
ou seja,
\[Z=\frac{\hat p_1-\hat p_2 - (p_1-p_2)}{\sqrt{\frac{\hat p_1(1-\hat p_1)}{n_1}+\frac{\hat p_2(1-\hat p_2)}{n_2}}}\sim N(0,1).\]
7.3.1 Teste de hipóteses
Estamos interessados em testar a hipótese nula: \(H_0: p_1=p_2\), contra as seguintes hipóteses alternativas:
- \(H_1: p_1\ne p_2\)
- \(H_1: p_1>p_2\)
- \(H_1: p_1<p_2\)
A estatística de teste é
\[z_0=\frac{\hat p_1-\hat p_2}{\sqrt{\frac{\hat p_1(1-\hat p_1)}{n_1}+\frac{\hat p_2(1-\hat p_2)}{n_2}}}\]
Portanto, podemos estabelecer para um teste com nível de significância \(\alpha\):
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | Região Crítica |
|---|---|
| \(H_1: p_1\ne p_2\) | \(z_0<-z_{\frac{\alpha}{2}}\) ou \(z_0>z_{\frac{\alpha}{2}}\) |
| \(H_1: p_1>p_2\) | \(z_0>z_{\alpha}\) |
| \(H_1: p_1<p_2\) | \(z_0<-z_{\alpha}\) |
| Hipótese Alternativa (\(H_1\)) | p-valor |
|---|---|
| \(H_1: p_1\ne p_2\) | \(2\times P(Z>|z_0|)\) |
| \(H_1: p_1>p_2\) | \(P(Z>z_0)\) |
| \(H_1: p_1<p_2\) | \(P(Z<z_0)\) |
7.3.1.1 Exemplo
Um artigo médico comparou a eficácia de um extrato-padrão de erva-de-são-joão com um placebo em 200 pacientes diagnosticados com depressão unipolar. Pacientes foram designados aleatoriamente em dois grupos de 100 pacientes: um grupo recebeu a erva-de-são-joão e o outro recebeu placebo. Depois de 8 semanas, 19 dos pacientes tratados com placebo mostraram melhoria, enquanto 27 daqueles tratados com erva-de-são-joão melhoraram. Há alguma razão para acreditar que a erva-de-são-joão seja efetiva no tratamento de depressão unipolar?
Solução
- sendo 1 a população que recebeu placebo e 2 a que recebu a erva-de-são-joão
- \(H_0: p_1=p_2\) vs \(H_1: p_1 < p_2\)
- \(\hat p_1=\frac{19}{100}=0.19; \hat p_2=\frac{27}{100}=0.27\)
- \(z_0=\frac{0.19-0.27}{\sqrt{\frac{0.19(1-0.19)}{100}+\frac{0.27(1-0.27)}{100}}}=-1.35\)
- \(z_{0.05}=1.645\)
- \(p-valor= P(Z>|-1.35|)=0.08850799\)
Como \(-z_{0.05}(-1.645)\leq z_0 (-1.35)\), não devemos rejeitar \(H_0\) com \(\alpha=0.05\), portanto não há evidência a um nível de significância de 5% para confirmar que a erva-de-são-joão seja efetiva no tratamento de depressão unipolar
7.3.2 Intervalo de Confiança
Se \(\hat p_1\) e \(\hat p_2\) forem as proporções amostrais de observações de duas amostras aleatórias e independentes, de tamanhos \(n_1\) e \(n_2\), que pertençam a uma classe de interesse, então um intervalo aproximado de confiança de \(100(1-\alpha)\%\) nas proporções verdadeiras \(p_1-p_2\) é:
\[\left[(\hat p_1-\hat p_2) \pm z_{\frac{\alpha}{2}}\sqrt{\frac{\hat p_1(1-\hat p_1)}{n_1}+\frac{\hat p_2(1-\hat p_2)}{n_2}}\right]\]
7.3.2.1 Exemplo
Uma vez que \(n_1=85,\hat p_1=0.12,n_2=85, \hat p_2=0.09\), construa um intervalo aproximado de confiança de 95% para a diferença da proporção de mancais defeituosos produzidos pelos dois processos.
Solução
- \(z_{0.025}=1.96\)
- \((0.12-0.09) - 1.96\sqrt{\frac{0.12(1-0.12)}{85}+\frac{0.09(1-0.09)}{85}}\leq p_1-p_2 \leq (0.12-0.09) + 1.96\sqrt{\frac{0.12(1-0.12)}{85}+\frac{0.09(1-0.09)}{85}}\)
- \(-0.06205497 \leq p_1-p_2 \leq 0.122055\)
Note que o intervalo de confiança não o zero; assim, com base nos dados das amostras, parece improvável que as proporções sejam diferentes.